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28 de jan de 2012

A negritude na formação musical


A música negra, aflorada no continente africano, polinizou os jardins musicais do mundo todo, em especial das Américas, dando alma, sonoridade e ritmo para a musicalidade contemporânea. Essa é a essência do que nos ensina a Academia Brasileira de Black Music. Chegando de uma viagem a Luanda, capital de Angola, a jornalista e socióloga Vera Lúcia Benedito encontra-se com um amigo militante, que lhe pergunta: “O que podemos fazer por aquele povo-irmão?” E ela, antes de descrever tudo o que viu na viagem, responde: “Talvez, devamos indagar o que eles podem fazer por nós.” O diálogo mostra, primeiro, o quanto desconhecemos algumas realidades do nosso continente-mãe e, depois, revela-nos nosso próprio olhar preconceituoso a respeito dos africanos que vêm viver no Brasil. Nós os imaginamos sempre vindo buscar algo – do refúgio, após a fuga de uma terra repleta de problemas, como a mídia nos vende a África, a estudos que os habilitarão profissionalmente ao retornarem a seus países – e jamais os imaginamos trazendo alguma coisa que nos enriqueça. Negando esse pensamento, a música negra, no Brasil, tem ganho muito com a presença do publicitário e empresário angolano, Fernando Mukulukusso, fundador da Academia Brasileira de Black Music (ABBM) e da Hi Music School, que prepara artistas de alto nível, muitos deles vencedores de reality shows musicais. Ele próprio, há anos, vem produzindo CDs, DVDs e eventos que envolvem grandes nomes da MPB e artistas internacionais. Nascido em 1980, na cidade de Luena, capital do estado de Moxico, no leste de Angola, Fernando (cujo pai morreu quando ele tinha três anos) e sua família – a mãe e nove filhos, dos quais ele é o penúltimo – se mudaram para Lobito, cidade litorânea ao sul do país, no estado de Benguela. “Depois dos estudos básicos, aos 19 anos, eu me preparei para ir estudar em Portugal ou na Espanha. Antes, porém, vim visitar São Paulo por um ou dois meses. Por motivos religiosos, fui conhecer a Escola Adventista, no Capão Redondo. Gostei tanto que só voltei a Angola para buscar as malas e me despedir da família.”
UM DANÇARINO NA ENFERMAGEM
Até então, todo o contato que Fernando tinha com a música era através da break dance, dança de rua que é um dos quatro elementos da cultura hip hop. No Colégio Adventista, ele se forma técnico em enfermagem. O visto de estudante o impede de ser contratado por hospitais. Ele e outros enfermeiros estrangeiros formam uma equipe de enfermagem particular, atendendo a pacientes de alguns dos principais hospitais de São Paulo. Paralelamente, é formado o Blacks Singers, um grupo vocal de 12 cantores adventistas, que faz música à capela. Fernando é barítono. Como o grupo não tem apoio institucional, o enfermeiro, que começou a estudar publicidade e propaganda, decide abandonar o canto e se tornar produtor, o que o leva a Portugal para alguns trabalhos. Depois vai aos EUA para produzir o grupo vocal norte-americano Acappella e traz ao Brasil o pastorcantor Micheal McCurtis. Pensando em criar intercâmbios, ele produz e traz de Angola o grupo de rap SSP e o African Voices. No ano 2000, Mukulukusso, com seus parceiros, realizam, no bairro da Liberdade, o Black So’Dream Festival. “Tínhamos também dois outros sonhos monumentais: trazer ao Brasil o cantor, compositor e instrumentista, Steve Wonder e criar o Prêmio Black So’Dream. Conseguimos apoio de algumas personalidades como Gilberto Gil – então ministro da Cultura – Jorge Benjor e o grupo Racionais MC’s, entre outros.” Nenhum dos dois foi realizado! Porém, cinco anos depois, nasceu a ABBM que, segundo Fernando, é o caminho para a realização de ambos, aglutinando muito artistas interessados na música negra, e para dar suporte para outros projetos nessa área. “O projeto máster de nossa Academia, porém, é o Prêmio Black So’Dream. Estamos em busca dos parceiros que nos ajudarão e realizar esse sonho”, conclui.

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